CURIOSIDADES

Colecionador de Porto Ferreira, SP, diz ter investido R$ 1 milhão em acervo criado há 22 anos.

Abril 20 / 2017

Eles já embalaram muitas festas e romances e na era do MP3 e de um mundo cada vez mais tecnológico, os discos de vinil ainda resistem à invasão digital. No Dia Nacional do Disco, lembrado nesta quinta-feira (20) devido ao aniversário de 48 anos da morte do cantor e compositor brasileiro Ataulfo Alves, colecionadores da região de São Carlos (SP) contam como é manter a paixão pelos 'bolachões', como são chamados.

Morador em Porto Ferreira, Miguel Bragioni Lima Coelho, de 33 anos, disse ter aproximadamente 100 mil discos e que nos últimos 22 anos já investiu cerca de R$ 1 milhão para manter o acervo. No ano passado, ele comprou uma coleção por R$ 20 mil.

“O meu objetivo é salvar a discografia brasileira dos 78 rpm [rotações por minuto], que foram os primeiros discos do Brasil comercializados entre 1902 e 1964. Meu interesse está em armazenar estes discos, pois não existe um centro que abriga a produção fonográfica da nação. Depois que surgiu o LP [Long Play], esses discos de 78 rpm foram jogados no lixo. Hoje eu detenho 35% do que foi produzido no Brasil”, afirmou.

 

Coelho contou que o hábito de colecionar começou aos 4 anos, com moedas e selos. Mais tarde, aos 11, se interessou pelos discos e não parou mais. Hoje, reúne raridades de João Gilberto, Roberto Carlos, Pixinguinha com os Oito Batutas, material que chega a custar até R$ 1,5 mil.

Para isso, o colecionador viaja para várias regiões, como São Paulo, Minas Gerais e Paraná, e também faz contato com colecionadores de outros países para encontrar raridades.

“Os discos que mais gosto são os de músicas da década de 30. A época simboliza a era de ouro da música popular brasileira. Meu cantor preferido é Francisco Alves, rei da voz do Brasil e o cantor que mais gravou discos no país. Também gosto de música argentina, jazz norte-americano e inglês, canções napolitanas, fados”, relatou.

Os primeiros discos adquiridos foram dos caipiras Tonico e Tinoco e da dupla Vieira e Vieirinha, que o colecionador ganhou em uma gincana escolar na 5ª série. “Levei um susto quando vi aquilo porque eram pesados e rústicos. Cheguei em casa e mostrei para a minha mãe. Ela disse era um 78 rotações e colocou na vitrola. Fiquei impressionado”, contou.

Coelho disse que os amigos de mais idade falavam dos cantores da época, o que o estimulava a conseguir as antigas gravações. “Sempre fui visto como excêntrico pela minha faixa etária, recentemente recebi um colecionador em casa e ele se surpreendeu pela minha idade, pois imaginava um senhor mais idoso”, contou.

O amor pelos discos levou o colecionador ao curso de música no Conservatório de Tatuí. “Estudei piano clássico, acordeon. Acho que os discos influenciaram, um é consequência do outro”, completou. 

A estudante de São Carlos Haryanna de Oliveira Arantes tem 20 anos e há cinco virou colecionadora. Atualmente, ela tem um acervo com 200 LPs.

“Gosto de bandas antigas, dos anos 50, 70. Comecei a encontrar pontos de vendas e pessoas que colecionavam, aí passei a ficar mais próxima dessa realidade. Pago em média de R$ 20 a R$ 30 por um disco em um sebo, colecionadores vendem mais caro. Como não estou trabalhando, fica caro manter a coleção”, contou.

Haryanna disse que ultimamente tem ganhando muitos discos de amigos colecionadores, com quem também troca material. Para ela, ouvir música no vinil é mais interessante.

De toda a coleção, a jovem disse que são dois os álbuns que têm mais valor pessoal. “Um é o disco dos Beatles, ele é prata, paguei R$ 60. Foi barato, mas vale bem mais se eu revender. O outro é um disco duplo do Pink Floid, que tem todos os cartazes dentro com letras das músicas, as ilustrações, ele está bem completo”. O comerciante Sergio Piovesan, de 73 anos, é dono de uma loja em São Carlos onde vende vinil, vitrolas usadas, CDs e DVDs. Ele, que começou a vender discos em 1961, quando tinha 16 anos, disse que até chegou a colecionar, mas não levou o hobby adiante.

Piovesan disse já ter vendido mais de um milhão de discos. “No auge do vinil, quando lançava um disco de novela, a gente comprava dois mil. Dali três meses a gente precisava repor e, enquanto a novela estava em andamento, você estava vendendo”, relembrou. “Cheguei a ter nove lojas, mas hoje, com internet e, infelizmente, a pirataria, é mais difícil. As coisas mudam”, completou.

Rafael Moura inaugurou recentemente um bar em São Carlos e, por ser apaixonado pelos bolachões, apostou em um formato diferente. O som no La Casa é "100% vinil".

Dono de pouco mais de 100 discos, ele afirmou que a coleção é modesta, mas de qualidade. "É pequena, mas tem muito carinho aqui", brincou Moura, que apontou discos de "Tom Zé" e "Nação Zumbi" como os de maior valor sentimental.

Segundo o empresário, que começou a colecionar discos em 2010, por tocar vinil, o bar já criou uma identidade. "Tenho clientes que falam que vêm até aqui por causa do som. Tem cliente que me presenteou com discos. Aqui é um espaço para os amantes do vinil, todos são bem-vindos", afirmou.

O proprietário ainda disse que, por conta do perfil do bar, brevemente será promovida uma troca de discos aberta a toda comunidade.


Sob supervisão de Fabio Rodrigues, do G1

 

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